Porto Velho, RO - O crescimento do aluguel de curta temporada por plataformas digitais tem provocado conflitos em condomínios brasileiros e alimentado uma disputa entre moradores, investidores e o setor de turismo.
A prática altera a rotina dos prédios, levanta discussões sobre o direito à moradia e levou o tema aos tribunais.
https://g1.globo.com/fantastico/video/aluguel-de-curta-temporada-em-discussao-nos-condominios-14680430.ghtml
Aluguel de curta temporada em discussão nos condomínios
Em um condomínio de São Paulo, a síndica Lígia Ramos relata os impactos da circulação constante de hóspedes. Em um dos episódios, um morador alugou o salão de festas para realizar um casamento.
"O cara alugou o salão de festas para fazer um casamento dele [...] Ele não tá preocupado se alguém não dormiu, se acordou. Amanhã ele vai acordar e vai embora daqui", diz Ramos.
Segundo ela, a estrutura do prédio ajuda a atrair locações de curta duração. O condomínio oferece "uma piscina maravilhosa, uma academia de primeiro mundo, aquecimento central, com água quente, tipo de hotel".
Ao mesmo tempo, moradores reclamam do aumento da movimentação e do uso compartilhado das áreas comuns.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/0/6/4MjvnHSYSrsXAALw1SYg/captura-de-tela-2026-06-07-221143.jpg)
Piscina é fator de atração para hóspedes à procura de aluguel de temporada. — Foto: Fantástico
O hóspede pode ter acesso a tudo?
Entre os proprietários e anfitriões, há diferentes visões sobre os limites desse modelo.
A corretora Lucidalva Santos afirma que existem regras para os hóspedes. "Tem restrição, não aluga salão de festa, tem horários das áreas comuns para habitar", diz.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/C/U/ZOMk8VTq67qvLGLqioAg/captura-de-tela-2026-06-07-222238.jpg)
A guerra do aluguel por aplicativos: conflitos dividem moradores — Foto: Fantástico
Já Alessandra Peixoto, coordenadora comercial, defende que os locatários possam utilizar toda a estrutura do condomínio. "Eu acredito que sim, com regras. Seguindo as regras estipuladas pelo anfitrião".
Para o advogado imobiliário Márcio Raskorsky, a trégua só vem com norma específica. "Você tem as pessoas que compraram um segundo imóvel e querem fazer renda. Elas dizem: 'por que eu não posso fazer uma locação curta por hospedagem?' E aí está feita a guerra, né?"
Turismo predatório
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/A/h/RRIqDASAqjAOdNPihLmQ/captura-de-tela-2026-06-07-221242.jpg)
Moradores protestam contra o valor alto do custo de vida devido ao aluguel de temporada. — Foto: Fantástico
O ativista Daniel Pardo afirma que "a maioria dos turistas se relaciona com as cidades como um objeto de consumo" e diz que o fenômeno torna difícil manter "um espírito de comunidade".
Na cidade espanhola, o grande problema é a falta de aluguéis para moradia. Lá, proprietários podem ganhar até quatro vezes mais com locações de curta duração do que com contratos tradicionais. Com menos oferta, o aluguel fica mais caro.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/c/H/mZbBKZQIeQKXb2AqJARg/captura-de-tela-2026-06-07-221301.jpg)
Barulho constante de malas e conversas nos corredores atrapalham a vida dos moradores. — Foto: Fantástico
Outra moradora, Sidnalva dos Santos, relata o impacto durante um tratamento de saúde: "Estava em um processo de doença, câncer de pâncreas, e naquele momento eu precisava de descanso."
Na Justiça
A discussão chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A corte já decidiu que cabe aos condomínios autorizar ou proibir esse tipo de aluguel. Se não houver maioria de 2/3 pela aprovação, não será permitido.
Nesta semana, o tribunal suspendeu processos sobre o tema em todo o país para definir uma tese que deverá orientar futuras decisões.
"Vai caber então à assembleia daquele condomínio deliberar se altera ou não a finalidade residencial para mista, possibilitando assim esse tipo de atividade", explica Cássio Rodrigues, professor de Direito Civil da UFRJ.
Alguns prédios na planta no Rio de Janeiro já deixam clara a posição. "A gente já orienta que aqui foi definido na convenção que não é permitido a alocação por curta temporada", aponta Gustavo Magno, executivo de desenvolvimento imobiliário.
E outros alardeiam a possibilidade de lucrar com locação temporária. "É uma resposta a uma tendência de mercado para produtos que têm essa vocação", diz o corretor Sandro Morais.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/v/8/FPREsQSWW1skgtYgLAuA/captura-de-tela-2026-06-07-221436.jpg)
Alguns empreendimentos imobiliários vendem a promessa de lucro com aluguel de plataforma em apartamentos na planta. — Foto: Fantástico
"O Airbnb se posiciona hoje como esse ator que ajuda na absorção turística das cidades", diz Carla Comarella, diretora de Políticas Públicas da plataforma.
O Airbnb argumenta ainda que o principal problema é a escassez de novas moradias e que a plataforma ajuda milhões a viajarem.
Democracia no Copan
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/J/I/UKC10ZTcC0xxMYg9ix0g/captura-de-tela-2026-06-07-221500.jpg)
Edifício Copan, em São Paulo, tem centenas de apartamentos para aluguel de temporada. — Foto: Fantástico
E se o voto de um único morador seria capaz de desequilibrar a contagem final? O empresário Judson Sales administra 103 dos 1.160 apartamentos do prédio destinados a locações temporárias.
Um hotel de 100 apartamentos seria considerado de médio porte. A associação do setor acha que o serviço de locação temporária é concorrência desleal, por não pagar impostos iguais aos de hotel.
"Como eu comecei no Copan alugando a minha própria casa, quando eu não viajava, óbvio que não tinha como ter uma estrutura dessa. E as coisas foram crescendo aos poucos", conta Sales.
Sales já recebeu mais de 120 mil hóspedes no prédio. Ele afirma que precisou adaptar a operação após reclamações dos vizinhos sobre a circulação de funcionários.
Para Guilherme Milani, o síndico do Copan, os problemas não são exclusivos dos hóspedes. "Houve rompimento de regras? Houve. A gente também tem moradores e inquilinos que também transgridem regras aqui".
Ele lida com as reclamações de quem sente que o edifício residencial virou um "hotel informal com alguns moradores". Mas acredita que o aluguel de curta duração tem ajudado a revitalizar o Centro de São Paulo, onde 20% dos imóveis estão desocupados.
Fonte: G1
Tags
Brasil