Porto Velho, RO - Isaline Attelly, natural da ilha caribenha da Martinica, viveu quase um ano no Benin sem saber que sua ligação com o país da África Ocidental remontava a séculos atrás. A descoberta veio após registros genealógicos confirmarem que sua bisavó materna nasceu no território que hoje corresponde ao Benin e foi traficada para as Américas durante o auge do comércio transatlântico de pessoas escravizadas.
A revelação levou Attelly, criadora de conteúdo de 28 anos, a se inscrever no programa My Afro Origins (Minhas Origens Afro), iniciativa do governo beninense que concede cidadania a pessoas da diáspora africana. No ano passado, ela participou de uma das primeiras cerimônias de naturalização.
“Para mim, é uma fonte de orgulho. Sinto que minha jornada se completou”, afirmou Attelly à agência Reuters. “Estou orgulhosa e muito feliz por poder representar meus ancestrais.”
O programa integra a estratégia do presidente Patrice Talon para ampliar a visibilidade internacional do Benin, destacando seu papel central no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e transformando essa memória em vetor de turismo histórico e cultural.
As primeiras naturalizações coincidiram com o anúncio de novos projetos memorialísticos, como a construção de uma nova Porta do Não Retorno, em Ouidah — antigo ponto de embarque de africanos escravizados — e a réplica de um navio do século 18, com esculturas internas representando cerca de 300 cativos. Ambos ainda estão em obras.
O governo também prevê para este ano a inauguração do Museu Internacional da Memória e da Escravidão, que funcionará na antiga residência de Francisco Félix de Souza, um dos mais influentes traficantes de pessoas escravizadas entre os séculos 18 e 19.
Mesmo após sobreviver a uma tentativa de golpe no mês passado, Talon mantém a agenda cultural como uma das marcas de seu governo, que se encerra após as eleições presidenciais previstas para abril. Para ampliar o alcance do programa, o presidente recrutou figuras de destaque internacional. O cineasta Spike Lee e sua esposa, Tonya Lee Lewis, foram nomeados embaixadores do projeto junto à comunidade afro-americana.
“Nossos irmãos e irmãs no Benin estão nos dizendo: voltem para casa, retornem à terra de suas raízes”, declarou Spike Lee à emissora France 24.
Em julho de 2025, a cantora norte-americana de R&B Ciara tornou-se uma das primeiras celebridades a receber a cidadania beninense. Na semana passada, ela se apresentou em Ouidah durante um festival anual dedicado ao vodu, em um show que se estendeu até a madrugada.
O marido da artista, o jogador de futebol americano Russell Wilson, acompanhou o evento e afirmou que espera obter a cidadania beninense “muito em breve”.
Fonte: Agência Brasil