Final da Sul-Americana mostra que a bola pune, mas também premia

Independiente Del Valle, um dos trabalhos mais consistentes do continente,é um clube para ser estudado em detalhes

Porto Velho, RO - No futebol, a correlação entre resultado esportivo e boa administração é menor do que imaginamos. Clubes mal geridos e dirigentes inconsequentes também conquistam títulos, o que lhes dá a fachada de competência. 

Vejamos a final da Sul-Americana. Numa outra tarde de sábado, o São Paulo poderia ter vencido o Independiente Del Valle. Um jogo que legitimaria o desgoverno tricolor em desfavor de um dos trabalhos mais consistentes do continente.

O equatoriano Del Valle ficou conhecido como Matagigantes a partir de 2016 — quando, na Libertadores, eliminou Boca Juniors e River Plate e só perdeu na decisão para o Atlético Nacional. Títulos foram conquistados desde então: a primeira divisão nacional em 2021 e a Sul-Americana, duas vezes, em 2019 e 2022. Não há como contestar as façanhas nas quatro linhas.

Para não sobrecarregar o texto com indicadores econômicos, como a sequência de lucros nos últimos anos e a dívida baixa, fiquemos com o que há de mais básico. Em 2012, o Del Valle tinha US$ 5,4 milhões em faturamento. 

Em 2021, essa receita foi multiplicada para US$ 26 milhões. Duas conclusões ficam evidentes. Primeiro, houve notável crescimento nesse período. Segundo, a desvantagem financeira perante adversários brasileiros é gritante.

Como é que se aumenta tanto a arrecadação em mercado tão pequeno, em termos de mídia e patrocínios? Investimentos nas categorias de base e vendas para o exterior. Caicedo foi direto para a Inglaterra. Ângulo, para a Espanha. Ordoñez foi vendido para a Bélgica, e José Hurtado, para o Red Bull Bragantino, no Brasil. Todos eles negociados nos últimos cinco anos.

E como é que se ganha com tamanha disparidade em relação a argentinos e brasileiros? Um indício está em relato recente do técnico português Renato Paiva. O processo seletivo que culminou em sua escolha teve dois meses de entrevistas com presidente, diretor esportivo e recursos humanos. 

A preocupação dos profissionais estava no modelo de jogo, no treinamento e na adequação ao elenco — não em ter escudo para lidar com torcedores e conselheiros.

A consistência se vê também nas trocas de treinadores. Seja com Miguel Ángel Ramírez, Renato Paiva ou Martín Anselmi, este último o atual, o Del Valle mantém a identidade do futebol praticado em campo. Sinal de que há procedimentos internos, no departamento que conduz profissionalmente a modalidade. Este é um clube para ser estudado em detalhes.

Aqui se ressaltam as virtudes da administração do Del Valle, porque o contraste com o São Paulo embaraça qualquer torcedor tricolor que o acompanha. Financeiramente, há dificuldades constrangedoras, como a sua crescente dívida. Esportivamente, o clube não consegue converter superioridade econômica em títulos. 

Seu departamento de futebol é comandado por Carlos Belmonte, alguém sem formação técnica, nem remuneração. Politicamente, ele e o presidente Julio Casares se ocupam da perseguição a opositores e da mudança do estatuto em benefício próprio. Insistiram no golpe até vencer. Poder pelo poder.

Fosse outra tarde de sábado, a final da Sul-Americana poderia ter reforçado esta diretoria do São Paulo, publicamente e nos bastidores, e frustrado a elogiável administração do Del Valle. Felizmente, a bola não só pune, como uma vez disse Muricy Ramalho, ela também premia.


Fonte: O GLOBO

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