Rondônia, 24 de maio de 2026
Quem é Abdul El-Sayed, candidato que expôs racha no Partido Democrata

Quem é Abdul El-Sayed, candidato que expôs racha no Partido Democrata

Progressista venceu as primárias no Michigan e pode se tornar o primeiro muçulmano a chegar ao Senado dos EUA

Porto Velho, RO - As primárias democratas no Michigan definiram Abdul El-Sayed como o candidato do partido para enfrentar o republicano Mike Rogers na disputa para o Senado dos Estados Unidos, em novembro deste ano. El-Sayed fez história ao derrotar Haley Stevens, apoiada pelo establishment do Partido Democrata, e pode ser tornar o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado americano.

Mas o progressista enfrentará o desafio de convencer os democratas moderados a apoiarem a campanha e, em última instância, os eleitores indecisos do Michigan a pintarem o estado de azul novamente.

Quem é Abdul El-Sayed?

Filho de um imigrante egípcio, Abdulrahman Mohamed El-Sayed nasceu em Rochester Hills em 1984 e se define como um "legítimo cidadão nascido e criado no Michigan". Foi alfabetizado em árabe e inglês, se formou médico na Universidade Columbia e passou a se dedicar às políticas públicas na área da saúde, servindo como diretor executivo do Departamento de Saúde de Detroit.

Em 2018, tentou concorrer para governador, mas foi derrotado nas primárias pela democrata Gretchen Whitmer, que venceu as eleições gerais e agora cumpre o segundo mandato.

O que ele defende?

Nas eleições de meio de mandato deste ano, Abdul El-Sayed disputa para representar o estado do Michigan no Senado com o slogan "Dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso, Medicare para todos".

El-Sayed conduziu a campanha para as primárias defendendo o acesso gratuito à saúde pública, o fim do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira) e do apoio dos Estados Unidos a Israel. Ele também defende a taxação de grandes fortunas, mas se distanciou da ala socialista do partido: "Eu não sou socialista. Eu acredito no capitalismo, mas acredito que o capitalismo tem que ser regulado. [...] Eu acredito que os bilionários deveriam pagar sua parte para que nossas crianças possam ir para boas escolas. Não é tão radical", afirmou em entrevista à CNN.

O progressista recebeu o apoio do "Squad", o grupo informal de congressistas de esquerda na Câmara que inclui a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Por outro lado, foi taxado de "socialista radical de esquerda" e de "ameaça direta à América" pelo presidente Donald Trump e seus aliados.

El-Sayed ganhou destaque pela retórica assertiva e pela presença nas redes sociais. Ele frequentemente publica vídeos treinando na academia e diz que as publicações proporcionam uma conexão com homens jovens que não se identificam com o Partido Democrata: “Parte do problema que enfrentamos é que as pessoas não se veem representadas na nossa política”, disse ele à CNN. “Quero derrubar essa barreira artificial: trazer a política para dentro da academia e levar a academia para dentro da política.”

Abdul El-Sayed, vencedor das primárias democratas no Estado de Michigan, nos EUA, caminha após coletiva de imprensa em Detroit 5 de agosto de 2026 REUTERS/Rebecca Cook • REUTERS

Em contrapartida, as falas do democrata também viraram motivo de debate. Em entrevistas antigas, ele defendeu, por exemplo, redirecionar o financiamento da polícia a iniciativas de saúde mental e contra a pobreza.

Uma investigação da CNN revelou mais de 100 vídeos publicados em seu canal do Youtube e privados antes do lançamento da campanha. Em um dos vídeos, ele sugere substituir a Segunda Emenda da Constituição americana, que garante o direito de portar armas, pelo direito constitucional ao sistema de saúde pública. Em outro, criticou os fogos de artifício usados nas celebrações de 4 de Julho. A campanha de El-Sayed respondeu que os vídeos antigos "não refletem seus valores de hoje".

Posição sobre Israel

Um dos maiores pontos de atrito que dividiram os democratas durante a campanha às primárias foi a posição de Abdul El-Sayed em relação a Israel. O candidato afirma que Israel cometeu genocídio durante a guerra na Faixa de Gaza e se opõe ao envio de ajuda militar dos Estados Unidos.

"Eu acredito em direitos iguais à paz, dignidade e autodeterminação tanto para judeus israelenses quanto para palestinos. Mas acho que a nossa responsabilidade, acima de tudo, é de usar o dinheiro dos nossos impostos aqui no Michigan, para proporcionar saúde, escolas e estradas, ao invés de enviá-lo a um governo estrangeiro que pode usá-lo em forma de bombas e tanques para destruir infraestrutura, escolas e hospitais lá", ele disse em entrevista à CNN na semana passada.

No entanto, em uma entrevista anterior à âncora da CNN Kasie Hunt, ele afirmou: "Toda definição de um Estado judaico acaba resultando em alguma articulação de valores antiliberais, absolutamente todas". Quando questionado se ele acredita que Israel tem o direito de existir, respondeu: "A questão da existência de Israel não é uma dúvida. Não vou entrar nesse jogo de armadilha sobre se o país tem ou não o direito de existir. A questão, em última análise, é se queremos ou não uma política que valorize a igualdade de direitos".

O democrata também fez duras críticas à oponente Haley Stevens, cuja campanha foi fortemente apoiada pelo AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense), um grupo de lobby pró-Israel. O AIPAC gastou mais de US$30 milhões na campanha contra o progressista.

El-Sayed ainda foi criticado por participar de eventos de campanha ao lado do streamer Hasan Piker, que em 2019 gerou revolta ao dizer que a "América mereceu o 11 de setembro". Em resposta às críticas, Sayed disse que a fala de Piker foi obviamente "idiota", mas disse que o comentário foi feito anos atrás, tirado de contexto pela "cultura do cancelamento".

A reta final até novembro

Após vencer uma disputa que expôs as rachaduras entre as alas mais progressistas e moderadas do partido, o desafio de El-Sayed será criar uma coalizão entre os democratas para tentar vencer o candidato republicano e ajudar a reconquistar a maioria no Senado. O Partido Democrata precisa virar pelo menos quatro cadeiras atualmente preenchidas por republicanos para retomar o controle da câmara alta.

Durante a disputa pela nomeação, parte dos democratas demonstrou preocupação com a capacidade de El-Sayed de derrotar o republicano Mike Rogers na eleição geral, considerando Haley Stevens a candidata mais “elegível”.

Antes do resultado da primária democrata, Rogers disse durante uma ligação com apoiadores que se sentiria mais confiante com a vitória em novembro se disputasse contra El-Sayed: “Eu acho que ele é muito radical. Acho que ele vai perder grandes áreas da região oeste do estado. [...] Acho que nos sairemos bem se ele for, de fato, o candidato”

A fala do republicano chegou a ser usada como argumento por Stevens durante um debate, alegando que El-Sayed não seria capaz de vencer a eleição geral. Ela também chamou seu então oponente de “senador celebridade” e disse que os eleitores democratas precisam de alguém que trabalhe duro.

Candidato democrata ao Senado dos EUA Abdul El-Sayed 27 de julho de 2026 Robin Buckson/Pool via REUTERS • via REUTERS


"Michigan é um estado competitivo, então a eleição geral exige uma coalizão muito maior do que uma primária democrata. O desafio de El-Sayed não é necessariamente abandonar suas posições, mas traduzir uma candidatura progressista para uma linguagem de bolso", afirma a professora de Relações Internacionais e analista de Internacional da CNN Fernanda Magnotta.

Magnotta explica que o primeiro passo já aconteceu. Haley Stevens e a governadora Gretchen Whitmer já declararam apoio a El-Sayed após a vitória nas primárias. Essa perspectiva também foi reforçada pelo professor de Relações Internacionais do Berea College, Carlos Gustavo Poggio, que acredita que a participação de Stevens na campanha e o apoio de Whitmer podem ajudar a unificar os esforços. Ele ainda cita a importância da associação com Barack Obama, com quem El-Sayed conversou por telefone após vencer as primárias.

"Agora, ele precisa transformar endossos em mobilização e, sobretudo, convencer o eleitor democrata moderado de que sua candidatura não é apenas uma expressão de uma facção do partido. Custo de vida, emprego, saúde e indústria tendem a ser terrenos mais favoráveis para ampliar sua base", afirma Magnotta.

Para isso, o candidato democrata terá que demonstrar ao eleitor que está atento e disposto a encarar as principais reivindicações dos cidadãos do Michigan. "Emprego, inflação, moradia, saúde e o futuro da indústria automobilística são fundamentais. Michigan sente de maneira especialmente direta debates sobre tarifas, comércio e manufatura. Israel e Gaza têm peso político particular em algumas comunidades, mas não substituem a economia como questão transversal do eleitorado", explica a analista da CNN.

O futuro do Partido Democrata

Para o professor Poggio, as primárias do Michigan e a disputa pelo Senado revelam um cenário mais amplo sobre a condição atual do Partido Democrata: "Em certa medida, há, no mínimo, uma perda de controle do establishment democrata, ou uma espécie de guerra de civil dentro do partido entre essas diferentes alas".

Magnotta complementa que o partido ainda parece estar em disputa interna sobre qual é a melhor abordagem para responder ao trumpismo. Enquanto uma ala aposta na capacidade dos mais centristas de enfrentar os republicanos nas eleições gerais, outra acredita que o partido precisa de uma identidade mais clara e de maior mobilização: "A vitória de El-Sayed fortalece essa segunda leitura, mas não encerra a disputa", explica.

Fonte: CNN Brasil

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