Rondônia, 24 de maio de 2026
Aumento do teor de etanol na gasolina preocupa setor automotivo e pode afetar veículos movidos apenas a gasolina

Aumento do teor de etanol na gasolina preocupa setor automotivo e pode afetar veículos movidos apenas a gasolina

Entidades alertam para falta de testes de durabilidade após aprovação da mistura com 32% de etanol anidro; especialistas apontam maior risco para modelos antigos e importados

Porto Velho, RO - A elevação do teor de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, reacendeu o debate entre especialistas, fabricantes e representantes do setor automotivo. Embora os cerca de 37,9 milhões de veículos flex em circulação no Brasil não devam sofrer impactos significativos, a preocupação se concentra nos aproximadamente 4,7 milhões de automóveis movidos exclusivamente a gasolina, especialmente os mais antigos e alguns modelos importados.

Os dados constam da edição 2026 do Relatório da Frota Circulante, divulgado pelo Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), com informações referentes ao ano de 2025.

Testes avaliaram desempenho, mas não a durabilidade

O protocolo que embasou a adoção da nova mistura foi definido em dezembro de 2024. Em 2025, o Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) realizou testes em veículos nacionais da década de 1990 e em modelos importados com cerca de dez anos de uso.

Segundo os estudos, no curto prazo, o principal efeito observado foi um leve aumento no consumo de combustível. Como margem de segurança, parte dos ensaios foi realizada com gasolina contendo 32% de etanol, percentual agora aprovado.

Entretanto, os testes de durabilidade — considerados fundamentais para avaliar impactos a longo prazo sobre motores e sistemas de alimentação — não foram realizados.

De acordo com Renato Romio, professor e chefe do Laboratório de Motores e Veículos do IMT, a definição dos critérios ocorreu por meio de um comitê formado por representantes do governo, montadoras e demais entidades do setor.

"As partes dos testes relativas à dirigibilidade dos veículos, com avaliação da partida a frio, foram feitas com 32% de etanol anidro adicionado à gasolina, devido à margem de tolerância de dois pontos percentuais. A medição de emissões foi feita com o E30, mas as avaliações de durabilidade não foram realizadas", explicou.

Segundo o especialista, cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) avaliar se as informações disponíveis são suficientes para respaldar a alteração na composição do combustível.

Oficinas relatam problemas em veículos importados

Na prática, oficinas especializadas afirmam que alguns veículos importados já apresentam maior sensibilidade ao combustível brasileiro, principalmente aqueles equipados com sistemas mais sofisticados de injeção eletrônica.

O proprietário da oficina Motorfast, Bruno Tinoco, relatou o caso de um Audi Q7 que apresentou falhas após ser abastecido com gasolina comum durante uma viagem.

Segundo ele, foi necessário remover o combustível do tanque, reabastecer o veículo com gasolina premium e realizar procedimentos eletrônicos para normalizar o funcionamento do sistema de injeção.

Tinoco afirma que combustíveis premium, como Podium, Ipimax Pro e Shell V-Power, possuem maior octanagem e mantêm o teor de etanol em aproximadamente 25%, o que pode favorecer alguns modelos importados. Em contrapartida, o preço do litro se aproxima de R$ 10 em alguns postos.

Outro caso citado pelo mecânico envolve uma Mercedes-Benz GLC 2.0 Turbo, ano 2019, que apresentou carbonização do motor. O problema teria causado danos às velas, bicos injetores e ao sensor de pressão do combustível, gerando um orçamento de reparo superior a R$ 11 mil.

Entidades pedem mais estudos

Diante da aprovação da nova mistura, entidades representativas do setor automotivo encaminharam uma manifestação ao governo federal defendendo que ainda não existem estudos conclusivos sobre os efeitos da elevação do teor de etanol de 30% para 32%.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa), Marcelo Godoy, afirmou que a mudança exige maior previsibilidade para que fabricantes possam adaptar seus projetos.

"Existe uma possibilidade muito forte de termos veículos parados na rua, com o motor quebrado. Esse é o tamanho da discussão e, por isso, precisamos de mais tempo para tratar do assunto."

Segundo ele, a entidade reconhece os benefícios econômicos e ambientais da ampliação do uso do etanol, mas considera necessária uma transição mais gradual, acompanhada de estudos de engenharia e validações técnicas.

Mudanças já ocorreram no passado

Alterações no percentual de etanol misturado à gasolina não são novidade no Brasil. Em 1989, durante um período de escassez do biocombustível, o governo reduziu a proporção de álcool na gasolina de 22% para 17%.

Na época, a falta de etanol nos postos provocou filas para abastecimento e afetou diretamente o mercado de veículos movidos exclusivamente a álcool, que predominavam entre os automóveis novos.

Agora, o novo aumento da mistura reacende o debate sobre o equilíbrio entre os benefícios econômicos e ambientais da política de biocombustíveis e os possíveis impactos técnicos sobre parte da frota brasileira.

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