Saída da Abiove da Moratória da Soja enfraquece combate ao desmatamento na Amazônia, alertam ambientalistas

Saída da Abiove da Moratória da Soja enfraquece combate ao desmatamento na Amazônia, alertam ambientalistas

Brasil vinha reduzindo emissões com a queda do desmatamento; abandono do pacto pela Abiove, representante das maiores exportadoras de soja do país, pode comprometer o discurso de ‘campeão climático’ e ampliar pressão sobre o setor, avaliam especialistas

Brasnorte (MT), 09/04/2025 – Vista aérea do ecnontro da Floresta Amazônica com lavouras de milho e soja, na margem da Terra Indígena Erikpatsa, onde vive o Povo Rikbaktsa. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Porto Velho, RO - A decisão da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) de se retirar da Moratória da Soja é vista por organizações ambientalistas como um grave retrocesso no combate ao desmatamento da Amazônia. Firmado em 2006, o acordo voluntário reúne empresas, governo federal e sociedade civil com o compromisso de não comercializar soja cultivada em áreas desmatadas após 2008 no bioma amazônico.

O alerta foi feito após comunicado divulgado pela Abiove na última segunda-feira (5). A entidade, que representa algumas das maiores exportadoras de soja do país — como Bunge, Cargill e Amaggi — decidiu deixar o pacto após a retomada da vigência da Lei nº 12.709/2024, do estado do Mato Grosso. A norma impede o acesso a benefícios fiscais por empresas signatárias de acordos privados, como a Moratória da Soja.

Entidades ruralistas mato-grossenses se opõem à moratória e alegam que o acordo impõe barreiras comerciais injustas aos produtores rurais, ao impedir a comercialização de soja cultivada em áreas regulares e licenciadas. A moratória, no entanto, proíbe a compra do grão produzido em áreas desmatadas na Amazônia mesmo quando a derrubada da floresta ocorreu dentro dos limites legais do Código Florestal, que permite o desmatamento de até 20% da propriedade.

Esvaziamento do pacto e riscos ambientais

Embora o pacto continue formalmente válido, organizações ambientalistas afirmam que há um processo de esvaziamento da medida, justamente em um momento de agravamento da crise climática global. Segundo as entidades, a saída das grandes tradings pode comprometer metas internacionais assumidas pelo Brasil, como as previstas no Acordo de Paris.

Para Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace, a decisão afeta diretamente a imagem internacional do país. “O Brasil vinha reduzindo suas emissões à medida que diminuía o desmatamento. O abandono do compromisso mais longevo e bem-sucedido contra o desmatamento é frustrante”, afirmou.

O WWF-Brasil classificou a decisão como um “retrocesso grave e injustificável”. Em nota, a organização destacou que a saída das empresas enfraquece um dos instrumentos mais eficazes de combate ao desmatamento e expõe o agronegócio brasileiro a riscos climáticos, jurídicos e reputacionais, especialmente em mercados exigentes como o da União Europeia.

Já o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) alertou que a retirada da Abiove ameaça diretamente os sistemas de monitoramento, rastreabilidade e auditoria, fundamentais para garantir que a soja não seja adquirida de áreas desmatadas após julho de 2008.

Parte da floresta amazônica desmatada. Foto: Carlos Fabal/AFP

Impactos no desmatamento e no clima

Estudo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) aponta que o fim da moratória pode elevar em até 30% o desmatamento na Amazônia até 2045, com emissões acumuladas estimadas em 20 bilhões de toneladas de CO₂ decorrentes da conversão de floresta em áreas agrícolas.

Dados do próprio setor indicam que, nos municípios monitorados, a área média anual desmatada caiu 69%, passando de 11.424 km²/ano (2002–2008) para 3.526 km²/ano (2009–2022), enquanto a área plantada com soja no bioma amazônico cresceu 344% no mesmo período.

Segundo o WWF-Brasil, entre 2007 e 2022, a soja avançou 1,64 milhão de hectares na Amazônia, mas apenas cerca de 250 mil hectares ocuparam áreas desmatadas após 2008 — evidência de que o crescimento da produção ocorreu majoritariamente sem avanço sobre a floresta.

Posição da Abiove

Procurada pela Repórter Brasil, a Abiove afirmou, em nota, que a Moratória da Soja cumpriu “seu papel” e deixou um “legado incontestável”, consolidando o Brasil como referência global em produção sustentável. A associação também declarou que a experiência acumulada ao longo de quase 20 anos não será perdida e que a legislação ambiental vigente garantirá a continuidade das políticas públicas de preservação e controle do desmatamento.

O pacto empresarial segue sendo analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), e já foi alvo de investigação pelo Cade, após questionamentos de produtores rurais que alegam possível formação de cartel entre exportadoras.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem