Porto Velho, RO - Faleceu em Porto Velho, no dia 1º de janeiro de 2026, a professora Úrsula Depeiza Maloney, uma das mais importantes referências da educação e da preservação da memória histórica de Rondônia. Aos 89 anos, a educadora encerra uma trajetória marcada pelo compromisso com a sala de aula, pela defesa intransigente da escola pública e pelo orgulho de suas raízes barbadianas, profundamente ligadas à construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Educadora por vocação, Úrsula dedicou mais de seis décadas à formação de crianças, jovens e professores, tanto na capital quanto em regiões distantes do estado, como ao longo da BR-364, no Baixo Madeira e no Alto Guaporé. Em cada escola por onde passou, levou muito mais do que conteúdos escolares: levou disciplina, afeto, respeito e a convicção de que a educação é o caminho mais seguro para transformar vidas.
Carinhosamente conhecida como “Tia Sula”, ficou marcada pela firmeza na condução da sala de aula, pelo sorriso sempre presente e pela forma humana com que acolhia alunos, colegas e famílias. Para muitos ex-alunos, sua presença representava cobrança, mas também incentivo, oportunidades e esperança — especialmente em tempos em que estudar significava enfrentar longas distâncias, dificuldades financeiras e estruturas escolares precárias.
Raízes barbadianas e orgulho da história
Filha do barbadiano Oscar Depeiza Maloney, bombeiro hidráulico que veio ao Brasil para trabalhar na Madeira-Mamoré, e de Cleta Francisca Maloney, mato-grossense de Vila Bela, Úrsula cresceu cercada por histórias de imigração, luta e resistência. Ao longo da vida, fez questão de preservar essa memória, destacando a importância dos trabalhadores estrangeiros na implantação da ferrovia e na formação de Porto Velho.
Em entrevistas e palestras, recordava com detalhes as viagens de trem até Guajará-Mirim, as fagulhas que atingiam os passageiros e o esforço das famílias que ajudaram a construir a região. Para ela, conhecer essa história era essencial para que as novas gerações compreendessem que Rondônia nasceu do trabalho de muitos povos, culturas e sotaques.
Da escola normal às salas rurais de Rondônia
Ex-aluna do tradicional Colégio Maria Auxiliadora, em Porto Velho, e formada pelo Instituto Carmela Dutra, Úrsula integrou a geração de professoras que ajudou a estruturar o sistema educacional rondoniense quando o estado ainda vivia a realidade de Território Federal.
Como supervisora e formadora de professores, percorreu escolas rurais, comunidades ribeirinhas e localidades ao longo da BR-364, muitas vezes enfrentando lama, calor intenso, longos trajetos de barco e a ausência de infraestrutura mínima. Relatava com frequência as turmas que estudavam em prédios de madeira cobertos de palha, crianças que escreviam apoiadas nos próprios joelhos e alunos que chegavam à aula com fome, mas não desistiam de aprender.
Entre colegas, era reconhecida pela firmeza pedagógica, pela defesa da boa formação docente e pela exigência de respeito ao professor — que ela considerava a segunda grande autoridade na vida das crianças, logo após a família. Também foi crítica da desvalorização salarial e da falta de condições de trabalho, cobrando que a educação fosse tratada como prioridade real, e não apenas como discurso.
Reconhecimento em vida e presença na mídia
O legado de Úrsula Maloney foi amplamente reconhecido ainda em vida. Recebeu homenagens de escolas, instituições culturais, universidades e representantes do poder público, sendo frequentemente citada como referência por educadores, pesquisadores e historiadores que estudam a formação de Rondônia.
Em 21 de maio de 2025, apenas sete meses antes de seu falecimento, Úrsula foi convidada especial do In Foco Podcast, apresentado por Marcelo Régis, em entrevista exibida pelo News Rondônia. O jornalista definiu o episódio como “a mais completa biografia cibernética” da educadora.
Durante a conversa, Tia Sula relembrou a trajetória da família Maloney desde Barbados, falou das dificuldades da educação no interior, comentou o fluxo migratório que marcou o estado e deixou conselhos emocionados aos novos professores. O programa reuniu ainda mensagens de ex-alunos, sobrinhos, netos e colegas de magistério — muitos deles residentes fora do Brasil — que agradeceram publicamente à educadora pelo papel decisivo em suas vidas.
Um legado para a educação e para a memória de Rondônia
Mais do que professora, Úrsula Depeiza Maloney tornou-se símbolo da resistência da escola pública, da preservação da memória local e da força das mulheres negras na história da Amazônia. Sua trajetória une educação, cultura, identidade e pertencimento — valores que ela sempre tratou como inseparáveis.
Ela deixa filho, netos, sobrinhos, irmãs, familiares, amigos, ex-alunos e toda uma comunidade educacional enlutada, mas profundamente grata pelo exemplo de coragem, ética, disciplina e compromisso com o futuro de Rondônia.
Velório e sepultamento
O velório será realizado no dia 2 de janeiro de 2026, a partir das 8h, na Funerária Dom Bosco – Sala de Homenagem Nobre, localizada na Avenida Pinheiro Machado, nº 1964, bairro São Cristóvão, em Porto Velho.
A saída para o cortejo está prevista para o mesmo dia, às 16h, com sepultamento no Cemitério dos Inocentes.
Para aqueles que desejam conhecer e preservar sua história, familiares e amigos destacam os registros em vídeo que mantêm viva a voz e o legado da educadora, entre eles sua participação no In Foco Podcast (News Rondônia) e entrevistas nas quais abordou imigração, educação e identidade barbadiana em Rondônia.
A educação rondoniense se despede de uma de suas maiores referências.
Mas a história de Tia Sula permanece viva — em cada aluno, em cada sala de aula e em cada página da memória de Porto Velho.