Porto Velho, RO - Uma recomendação que deveria inaugurar um novo capítulo de transparência na administração pública de Rondônia acabou virando apenas mais um documento esquecido nas gavetas do poder. A Recomendação nº 000001/2025, emitida pelo Promotor Geraldo Henrique Ramos Guimarães, da 7ª Promotoria de Justiça de Porto Velho, pedia o básico: que Governo do Estado, Assembleia Legislativa, Prefeitura de Porto Velho e Detran/RO passassem a divulgar, mensalmente, todos os gastos com publicidade institucional.
O pedido do MPRO era direto e simples:
* nomes das empresas contratadas;* valores pagos;
* gastos com produção de peças publicitárias;
* investimentos em rádio, TV, mídia exterior, revistas, sites e gráfica.
O objetivo era garantir ao cidadão uma visão clara de como o dinheiro público circula nos bastidores da comunicação oficial.
A reação do poder público: silêncio e portas fechadas
Apesar da clareza das exigências, nada foi cumprido. Órgãos públicos simplesmente ignoraram a recomendação, mantendo a política de opacidade que marca os gastos de publicidade no estado.
Em conversas internas, chefes de comunicação chegaram a debochar do pedido do Ministério Público:
“É apenas recomendação, não sou obrigado a divulgar nada. Aqui tem dados de empresas e não vou expor.”
Outro gestor foi ainda mais direto:
“Se tiver um TAC, ainda teremos tempo. Não vai ser fácil. Pelo menos aqui não vou divulgar nada.”
O resultado é um cenário em que a orientação do MPRO virou apenas um lembrete incômodo — um post-it institucional que todos fingem não ver.
Efeito contrário: veículos cortados dos planos de mídia
A ironia é que, em vez de ampliar a transparência, a recomendação serviu para reduzir ainda mais o fluxo de informações. Veículos de comunicação passaram a ser cortados dos planos de mídia dos órgãos públicos, sem explicações ou critérios claros.
Requerimentos foram enviados pedindo acesso aos contratos e processos de publicidade — nenhum deles foi respondido.
Hoje, o que deveria ser um sistema público de comunicação transparente opera no escuro: poucos sabem, ninguém explica e todos perdem.
Bastidores da gestão: atrasos, confusão e judicialização
Enquanto a recomendação permanece ignorada, a estrutura da publicidade oficial em Rondônia vive um caos:
* Governo do Estado: processos judicializados e incertezas quanto à execução.* Assembleia Legislativa: disputas políticas internas travam avanços.
* Prefeitura de Porto Velho: licitações em fase inicial, com peças refeitas por falta de organização e clareza.
* Detran/RO: dificuldades por ausência de equipe e falhas de planejamento.
O empresário Cleiton Pena, da Pen6 Publicidade, resumiu o problema:
“É difícil tocar contrato. Já mandaram cinco vezes um plano de mídia, mas sempre pedem para refazer.”
A frase ilustra um sistema desorganizado, sem direção, que afeta execução, planejamento e credibilidade.
Transparência adiada — e talvez só pela Justiça
Com o silêncio persistente dos órgãos públicos, a única forma de descobrir como são usados os recursos de publicidade parece ser pela via judicial. O MPRO, que tentou iluminar o tema com uma recomendação, pode agora ser obrigado a transformar o alerta em ação mais dura.
Enquanto isso, a transparência permanece apenas como promessa — um farol apagado em meio ao nevoeiro institucional.
E o cidadão rondoniense? Esse continua esperando que a luz finalmente acenda, nem que seja quando a Justiça bater à porta.