Rondônia, 24 de maio de 2026
Japão vai reativar usina nuclear de Fukushima 15 anos após desastre

Japão vai reativar usina nuclear de Fukushima 15 anos após desastre

Complexo teve usinas fechadas após terremoto e tsunami de 2011

© Kyodo/via REUTERS

Porto Velho, RO - O Japão deu, nesta segunda-feira (22), o passo final para permitir a retomada das operações da maior usina nuclear do mundo, marcando o retorno do país à energia nuclear quase 15 anos após o desastre de Fukushima. A decisão ocorreu após uma votação regional que concedeu aval político à reativação do complexo de Kashiwazaki-Kariwa, na província de Niigata.

Localizada a cerca de 220 quilômetros a noroeste de Tóquio, a usina foi uma das 54 instalações nucleares fechadas após o terremoto e tsunami de 2011, que causaram o colapso da usina de Fukushima Daiichi, no pior acidente nuclear desde Chernobyl.

Desde então, o Japão reativou 14 dos 33 reatores considerados operacionais, como parte de uma estratégia para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. Kashiwazaki-Kariwa será a primeira grande usina a voltar a operar sob gestão da Tokyo Electric Power Company (Tepco) — a mesma empresa responsável pela usina de Fukushima.

Voto político abre caminho para retomada

Nesta segunda-feira, a Assembleia da Província de Niigata aprovou um voto de confiança no governador Hideyo Hanazumi, que havia manifestado apoio à retomada das atividades no mês passado. A decisão remove o último obstáculo político regional para a reativação da usina.

“Este é um marco, mas não é o fim”, afirmou Hanazumi após a votação. “Não há fim quando se trata de garantir a segurança dos moradores de Niigata.”

Apesar da aprovação, a sessão — a última do ano — evidenciou divisões profundas na comunidade. Parlamentares contrários à retomada criticaram a decisão, alegando que a vontade popular foi ignorada.

“Isto nada mais é do que um acordo político que não leva em consideração a vontade dos moradores de Niigata”, declarou um deputado durante o debate.

Protestos e temor popular

Do lado de fora da assembleia, cerca de 300 manifestantes enfrentaram o frio segurando faixas com mensagens como “Não às armas nucleares”, “Somos contra a retomada de Kashiwazaki-Kariwa” e “Apoiem Fukushima”.

“Estou verdadeiramente furioso, do fundo do meu coração”, disse à agência Reuters Kenichiro Ishiyama, de 77 anos. “Se algo acontecer na usina, seremos nós que sofreremos as consequências.”

Capacidade e cronograma

A Tepco estuda reativar o primeiro dos sete reatores da usina já em 20 de janeiro, segundo a emissora pública NHK. O complexo possui capacidade total de 8,2 gigawatts (GW), suficiente para abastecer milhões de residências.

O plano prevê colocar em operação uma unidade de 1,36 GW no próximo ano e outra de igual capacidade por volta de 2030.

“Continuamos firmemente comprometidos em nunca repetir um acidente como o de Fukushima e em garantir que os moradores de Niigata jamais passem por algo semelhante”, afirmou o porta-voz da Tepco, Masakatsu Takata.

No mercado financeiro, as ações da Tepco subiram 2% nesta segunda-feira, superando o índice Nikkei, que avançou 1,8%.

População segue desconfiada

Apesar dos incentivos econômicos, a resistência popular permanece forte. No início do ano, a Tepco prometeu investir 100 bilhões de ienes (cerca de US$ 641 milhões) na província ao longo de dez anos para conquistar apoio local.

Ainda assim, uma pesquisa divulgada pela prefeitura em outubro mostrou que 60% dos moradores não acreditam que as condições de segurança para a retomada tenham sido plenamente atendidas, e quase 70% demonstram preocupação com a Tepco como operadora da usina.

Ayako Oga, de 52 anos, que se mudou para Niigata após fugir da região de Fukushima em 2011, relata que o trauma permanece.

“Conhecemos, em primeira mão, o risco de um acidente nuclear e não podemos ignorá-lo”, disse. “Ainda sofro sintomas semelhantes ao estresse pós-traumático.”

Futuro energético em debate

Mesmo favorável à retomada, o governador Hanazumi afirmou recentemente esperar que o Japão consiga, no futuro, reduzir sua dependência da energia nuclear.

“Quero ver uma era em que não precisemos depender de fontes de energia que causam ansiedade”, declarou.

A reativação de Kashiwazaki-Kariwa simboliza uma virada estratégica na política energética japonesa, mas também reacende feridas profundas deixadas por Fukushima — e mantém o debate entre segurança, economia e memória coletiva longe de um consenso.

Fonte: Agência Brasil

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