Porto Velho, RO - Com mais de 3 milhões de inscritos no YouTube e conhecido nas redes sociais por prometer cuidar “do corpo, da mente e da alma” por meio da medicina chinesa, o influencer Peter Liu foi condenado pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas (SP) por manter uma empregada doméstica em condições análogas à escravidão. A decisão envolve também a ex-esposa, Jane Liu, e os filhos do casal.
De acordo com o processo, a vítima — cuja identidade é preservada — trabalhou por cerca de 30 anos para a família Liu, exercendo funções domésticas, cuidando de familiares e atuando na clínica de medicina chinesa mantida pelo grupo, sem registro em carteira e, durante décadas, sem receber salário.
Histórico da exploração
Segundo a denúncia, a funcionária começou a trabalhar para a família em 1992, quando Peter e Jane Liu vieram da China para o Brasil e se estabeleceram em Recife (PE). Inicialmente contratada como babá, ela teria recebido salário mínimo por apenas seis meses, sem formalização. Posteriormente, foi levada para Campinas (SP), onde deixou de receber qualquer remuneração.
Natural de Belo Jardim (PE), a mulher, hoje com 59 anos, é semianalfabeta e relatou jornadas exaustivas, das 7h às 22h, além de restrições alimentares, ameaças, xingamentos xenofóbicos e condições degradantes de moradia. Em alguns períodos, chegou a dormir em uma maca dentro do consultório da família.
A vítima também desempenhava funções administrativas e auxiliava no atendimento a pacientes da clínica, além das tarefas domésticas. Ao longo de décadas, segundo o processo, o único dinheiro recebido eram trocados de compras feitas para a família.
Condenação e recursos
A sentença foi proferida em agosto deste ano pelo juiz Caio Rodrigues Martins Passos, da 10ª Vara do Trabalho de Campinas, que fixou indenização de R$ 400 mil à vítima. A defesa da funcionária considera o valor insuficiente diante dos danos causados por três décadas de exploração.
A família Liu recorreu da decisão, alegando inexistência de vínculo trabalhista. Peter Liu afirmou que a funcionária era empregada de sua ex-esposa e que não mantinha contato com ela há mais de 20 anos. No entanto, fotos anexadas ao processo mostram o influencer ao lado da funcionária e de familiares em 2018, em São José do Rio Preto (SP).
Envolvimento da filha
Paradoxalmente, a empregada atualmente vive com Anni Liu, filha do casal, que também foi condenada no processo. Em depoimento, Anni afirmou que rompeu relações com os pais ao perceber a situação de exploração e que ajudou a funcionária a buscar apoio psicológico e jurídico.
A defesa da família questiona a permanência da vítima na casa da filha, alegando inconsistências na narrativa. Já Anni sustenta que tentou garantir independência financeira à empregada, inclusive tornando-a sócia de uma empresa de saúde.
Encaminhamentos
Além da indenização, o juiz determinou o envio dos autos ao Ministério Público do Trabalho (MPT), ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal (PF), para apuração de possíveis responsabilidades criminais.
O que diz a defesa
Em nota, a defesa de Peter Liu e Jane classificou o caso como uma “trama armada” e afirmou que a ação foi movida após tentativas frustradas de obtenção de dinheiro por parte da funcionária, supostamente em conluio com a filha do influencer. Os advogados afirmam confiar na reversão da condenação em instâncias superiores.
Fonte: Metrópoles