Rússia pode usar criptomoedas para atenuar sanções dos EUA


Entidades russas têm ferramentas tecnológicas à disposição, como o rublo digital

Porto Velho, RO - Quando os Estados Unidos proibiram os americanos de fazer negócios com bancos, empresas de petróleo e gás e outras companhias russas em 2014, após a invasão da Crimeia, o impacto na economia russa foi rápido e enorme. Economistas estimam que as sanções impostas pelos países ocidentais custam à Rússia US$ 50 bilhões (R$ 255,8 bilhões) por ano.

Desde então, o mercado global de criptomoedas e outros bens digitais tem crescido muito, o que é má notícia para os que aplicam sanções e boa para a Rússia.

Na terça-feira (22), o governo Biden promulgou novas sanções à Rússia devido ao conflito na Ucrânia, com o objetivo de impedir seu acesso ao capital estrangeiro. Mas entidades russas estão se preparando para atenuar alguns dos piores efeitos, fazendo acordos com qualquer um, no mundo todo, que se disponha a trabalhar com elas, disseram especialistas.

Eles acrescentaram que essas entidades podem usar moedas digitais para contornar os pontos de controle usados pelos governos para bloquear os negócios, principalmente transferências bancárias de dinheiro.

"A Rússia teve muito tempo para pensar sobre essa consequência específica", disse Michael Parker, ex-promotor federal que hoje lidera o escritório de advocacia Ferrari & Associates, de combate à lavagem de dinheiro e sanções em Washington, DC. "Seria ingênuo pensar que eles não imaginaram exatamente esse cenário."

As sanções estão entre as ferramentas mais poderosas que os Estados Unidos e os países europeus têm para influenciar o comportamento de nações que não consideram aliadas. Os Estados Unidos, em particular, podem usar as sanções como ferramenta diplomática porque o dólar é a moeda de reserva usada em pagamentos em todo o mundo. Mas as autoridades americanas estão cada vez mais cientes do potencial das criptomoedas para diminuir o impacto das sanções, e estão intensificando o escrutínio dos ativos digitais.

Para aplicar sanções, um governo faz uma lista de pessoas e negócios que seus cidadãos devem evitar.

Quem for apanhado em envolvimento com um membro da lista enfrentará multas pesadas. Mas a verdadeira chave para um programa de sanções eficaz é o sistema financeiro global. Bancos do mundo inteiro desempenham um papel importante na fiscalização: eles veem de onde o dinheiro sai e para onde se destina, e as leis contra a lavagem de dinheiro exigem que eles bloqueiem transações com as entidades sancionadas e relatem suas descobertas às autoridades. Mas se os bancos são os olhos e ouvidos dos governos nesse ambiente, a explosão das moedas digitais os está cegando.

Os bancos devem seguir as regras de "conheça seu cliente", que incluem a verificação da identidade deles. Mas as exchanges e outras plataformas que facilitam a compra e venda de criptomoedas e ativos digitais raramente são tão eficientes em rastrear seus clientes quanto os bancos, embora devessem seguir as mesmas regras.

Em outubro, o Departamento do Tesouro dos EUA alertou que as criptomoedas representavam uma ameaça cada vez mais séria ao programa de sanções dos EUA, e que as autoridades americanas precisavam se educar sobre essa tecnologia.

Caso opte por evitar sanções, a Rússia tem várias ferramentas relacionadas a criptomoedas à sua disposição, disseram especialistas. Basta encontrar maneiras de negociar sem tocar no dólar.

O governo russo está desenvolvendo sua própria moeda digital do banco central, o chamado rublo digital, que espera usar para negociar diretamente com outros países dispostos a aceitá-la sem primeiro convertê-la em dólar. Técnicas de hackers como o "ransomware" [sequestro digital] podem ajudar os atores russos a roubar moedas digitais e compensar a receita perdida com as sanções.

Enquanto as transações de criptomoeda são registradas no blockchain subjacente, tornando-as transparentes, novas ferramentas desenvolvidas na Rússia podem ajudar a mascarar a origem das transações. Isso permitiria que as empresas negociassem com entidades russas sem ser detectadas.

Há um precedente para esses tipos de soluções alternativas. O Irã e a Coreia do Norte estão entre os países que usaram moedas digitais para abrandar os efeitos das sanções ocidentais, tendência que autoridades dos EUA e da ONU observaram recentemente. A Coreia do Norte, por exemplo, usou ransomware para roubar criptomoedas para financiar seu programa nuclear, de acordo com um relatório da ONU.



Sede do Banco Central da Rússia, em Moscou - Maxim Shemetov - 11.fev.2019/Reuters

Em outubro de 2020, representantes do banco central da Rússia disseram a um jornal de Moscou que o novo "rublo digital" tornará o país menos dependente dos Estados Unidos e com maior resistência a sanções. Permitirá que as entidades russas realizassem transações fora do sistema bancário internacional com qualquer país disposto a negociar em moeda digital.

A Rússia poderá encontrar parceiros dispostos em outros países-alvos das sanções dos EUA, incluindo o Irã, que também estão desenvolvendo moedas digitais apoiadas pelo governo. A China, maior parceiro comercial da Rússia em importações e exportações, de acordo com o Banco Mundial, já lançou sua própria moeda digital oficial. O líder chinês, Xi Jinping, descreveu recentemente o relacionamento do país com a Rússia como "ilimitado".

O sistema em desenvolvimento de bancos centrais trocarem diretamente as moedas digitais cria novos riscos, disse Yaya Fanusie, membro do Center for a New American Security que estudou os efeitos da criptomoeda sobre as sanções. "A diminuição do poder das sanções dos EUA vem de um sistema em que esses estados-nações são capazes de fazer transações sem passar pelo sistema bancário global."

No início de fevereiro, monitores de sanções independentes disseram ao Conselho de Segurança da ONU que a Coreia do Norte estava usando criptomoedas para financiar seu programa nuclear e de mísseis balísticos, segundo a agência Reuters. (Um porta-voz da missão permanente da Noruega na ONU confirmou a existência do relatório, que ainda não foi divulgado.

Fonte: Folha de São Paulo


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