Rondônia, 24 de maio de 2026
Com apoio de bancários, Confederação vai ao STF contra privatização da Caixa

Com apoio de bancários, Confederação vai ao STF contra privatização da Caixa


Caixa Econômica Federal

Com o apoio da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae) e de outras entidades representativas dos empregados do banco, a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) entrou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Medida Provisória 995, que abre caminho para a privatização da estatal. Com pedido de concessão imediata de cautelar para a suspensão dos efeitos da medida provisória, a Contraf também solicita que o STF declare a inconstitucionalidade da MP 995. Ela entrou em vigor no último dia 7 como manobra do governo para permitir que a direção da Caixa prossiga o fatiamento da empresa, uma vez que autoriza a venda de subsidiárias estratégicas e rentáveis do banco sem o aval do Congresso e em desrespeito à Constituição e ao próprio Supremo.

“A edição desta MP deixa evidentes o subterfúgio e as intenções do governo ao usar este instrumento. A medida provisória não é relevante para o momento, não é urgente; ainda mais, considerando esta conjuntura de pandemia e uma crise econômica sem precedentes”, afirma o presidente da Fenae, Sérgio Takemoto. “Portanto, fica muito claro que o Executivo adotou essa medida como manobra para burlar a Constituição, o STF e o Poder Legislativo, de uma só vez. O governo quer dar, a ele próprio, a autorização para entregar o patrimônio público para o mercado”, reforça Takemoto.

Na ADI, a Contraf ressalta a escolha de uma medida provisória como instrumento para vender as subsidiárias da Caixa. Segundo o texto, a relevância e a urgência são requisitos para lançar mão de uma MP e a privatização do banco não se encaixa nesta prerrogativa. “O pressuposto constitucional de urgência significa que, para a edição de medida provisória, é imprescindível que exista algum tipo de perigo na demora”, analisa o documento.

Para reforçar, o texto cita entendimento do próprio Supremo ao julgar outra Ação Direta de Inconstitucionalidade: “O que justifica a edição dessa espécie normativa, com força de lei, em nosso direito constitucional, é a existência de um estado de necessidade, que impõe ao poder público a adoção imediata de providências, de caráter legislativo, inalcançáveis segundo as regras ordinárias de legiferação [estabelecer leis, legislar]”.

“Essa MP é uma forma de o governo escapar da discussão sobre os prejuízos que o desmonte dos bancos públicos traz para o país. É uma forma mal disfarçada de fatiar os bancos para poder vendê-los. O pior é que o governo quer vender partes lucrativas dos bancos públicos, como as Loterias”, observa a presidenta da Contraf, Juvandia Moreira.

LOTERIAS — Como mais um exemplo do real objetivo da MP 995 — distorcer o entendimento do STF e burlar a Constituição — a ADI também cita as Loterias da Caixa. Criado em 1969 por força do Decreto-Lei 759, o banco público tem como uma das finalidades “explorar, com exclusividade, os serviços da Loteria Federal do Brasil e da Loteria Esportiva Federal nos termos da legislação pertinente”.


Com a edição da MP, fica aberta a possibilidade de a Caixa repassar as atividades de exploração das loterias federais para uma subsidiária, para, então, abrir o capital desta subsidiária, perdendo efetivamente o controle sobre a atividade lotérica. “Tudo isso, sem autorização do Congresso Nacional”, pontua o presidente da Fenae.

Conforme destaca a ADI, “o Legislativo decide que é do interesse coletivo a exploração de determinada atividade econômica, e, portanto, somente o Legislativo poderá afirmar, em determinado momento no futuro, que o exercício de alguma atividade econômica deixou de ser interesse coletivo – justificando, portanto, a privatização ou extinção de determinada empresa pública”. “Ou seja, o Poder Executivo não pode, unilateralmente, sem participação do Legislativo, decidir que não existe mais tal interesse coletivo”, acrescenta a ADI.

Sérgio Takemoto lembra que a privatização da Lotex, em 2019, retirou cerca de 15% dos repasses financeiros para programas sociais. O chamado "repasse social" é definido como a atividade fim das Loterias Caixa (Mega-Sena, Lotofácil, Quina e Lotomania, entre outras), com valores redistribuídos para investimentos públicos em áreas como Saúde, Educação, Segurança e Esportes.


Somente em julho deste ano, as Loterias Caixa destinaram mais de R$ 640 mil para ações sociais. Em 2019, de uma arrecadação de R$ 16,7 bilhões, as Loterias repassaram cerca de R$ 6,5 bilhões: R$ 1,2 bilhão para o Esporte; R$ 4,9 bilhões para Cultura, Segurança, Seguridade e Saúde; e R$ 331 milhões para o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies).

A ADI — De acordo com Ação Direta de Inconstitucionalidade ajuizada pela Contraf, a MP 995 foi elaborada como “artifício para o fatiamento da empresa estatal” a partir da criação de subsidiárias, sob o risco de esvaziamento da empresa-mãe, “ferindo de morte uma série de garantias previstas na Constituição Federal”.

“A MP nº 995/2020 pode levar à descaracterização da Caixa e de suas subsidiárias, com possível esvaziamento econômico da empresa estatal, e ainda o faz de maneira unilateral, sem a participação do Legislativo, transbordando, assim, limites Constitucionais”, alerta o texto.

As garantias constitucionais apontadas pela ADI, burladas pela edição da medida provisória, estão evidenciadas em três artigos da MP: a ofensa à separação dos Poderes (Art. 2º); o descumprimento do princípio de legalidade, no que se refere à criação de subsidiárias (Art.37º); e a falta de relevância e urgência para a adoção da medida (Art. 62º).

SUSPENSÃO DOS EFEITOS — Na ação ajuizada, a Contraf pede a intervenção do Supremo Tribunal Federal para a garantia do cumprimento da Constituição e a suspensão dos efeitos da MP 995. Como a medida provisória passou a valer a partir da edição (7 de agosto), a venda das subsidiárias da Caixa pode se concretizar antes que o Congresso coloque a matéria em votação.

“E mais: após a alienação de ativos, haverá situação de irreversibilidade, mesmo que a MP não seja convertida em lei — o que justifica a intervenção excepcional do STF, por meio de medida liminar, para o fim de garantir a constitucionalidade nos procedimentos de desinvestimentos da Caixa Econômica”, diz a ADI, que também pede a intimação do presidente Bolsonaro para que ele preste informações “sobre o ato impugnado”.

PARTIDOS TAMBÉM QUESTIONAM — No último dia 13, seis partidos de oposição ao governo Bolsonaro — PT, Psol, PCdoB, PDT, Rede e PSB — entraram com ADI no STF contra a Medida Provisória 995. Na ação, os partidos também pedem a concessão de liminar para suspender os efeitos da MP.

De acordo com o coordenador da Assessoria Técnica da Bancada do PT na Câmara dos Deputados, Giles Azevedo — um dos responsáveis pela ADI — a medida provisória tem o objetivo claro de “ludibriar” a Câmara e o Senado. “Ela tem um parâmetro temporal, que foi a decisão recente do STF, que definiu que as estatais que funcionam como holding e 'empresas-mãe' têm que, necessariamente, ter autorização do Congresso para serem vendidas; enquanto as subsidiárias, não”, explica Azevedo.

Tal posicionamento do Supremo foi manifestado em junho do ano passado no julgamento da ADI 5.624, ajuizada pela Fenae e a Contraf. A ação questiona os processos de privatização e a venda de empresas públicas e suas subsidiárias, a exemplo da Petrobras.

No último mês de julho, inclusive, o Congresso pediu ao Supremo que Câmara e Senado tornassem parte deste processo (julgamento da ADI 5.624), alegando que a Petrobras vem burlando a decisão do STF, transformando refinarias em nova subsidiárias para poder vendê-las.

REPERCUSSÃO NO CONGRESSO — Um total de 412 emendas à MP 995 foram apresentadas por deputados e senadores. Mais de uma dezena delas, contrárias à matéria, foram sugeridas pela Fenae. Um total de 281 parlamentares e entidades da sociedade civil assinam Manifesto contra a medida provisória e a privatização da Caixa.

A mobilização contra a MP continua repercutindo no Congresso. Na última semana de agosto, o coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Bancos Públicos, deputado Zé Carlos (PT-MA), encaminhou mensagem eletrônica para todos os integrantes do colegiado. No comunicado, ele pede apoio à mobilização conduzida pela Fenae contra a medida provisória e a venda da Caixa Econômica.

Na justificativa da mensagem — encaminhada aos 200 parlamentares que apoiaram a criação da Frente — Zé Carlos lembra o importante papel social da Caixa e critica a edição da MP 995, uma agressão à soberania nacional.

“Vossa Excelência, na condição de membro da Frente Parlamentar em Defesa dos Bancos Públicos, pode apoiar o manifesto da Fenae e de outras entidades dos trabalhadores. Assim, juntos, podemos fazer chegar forte ao Congresso Nacional o clamor do povo brasileiro: não à privatização da Caixa!”, defende o deputado maranhense, que acrescenta: “A Caixa tem de estar acima das disputas políticas e eleitorais. A eficiência da empresa é inequívoca, como agente de políticas públicas do Estado brasileiro. É preciso, portanto, preservá-la”.



Fonte:  Brasil 247/(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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