Fiocruz: detecção de bactérias resistentes triplicou na pandemia


Aumento de internações faz uso de antibióticos crescer e pode ter dado margem ao surgimento de mais 'superbactérias'

Porto Velho, RO -
A Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz) registrou um aumento três vezes maior na detecção de bactérias resistentes ao tratamento com antibióticos, as chamadas "superbactérias", desde o começo da pandemia até outubro deste ano.

Em 2019, o IOC/Fiocruz (Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz) registrou pouco mais de mil bactérias resistentes. Em 2020, o primeiro ano da crise sanitária causada pela Covid-19, o número superou os 2 mil microrganismos que não respondem à ação de antibióticos. Já de janeiro de 2021 a outubro, o índice saltou para 3,7 mil amostras confirmadas.

A bióloga Ana Paula Assef, chefe do IOC, acredita que o surgimento de microrganismos resistentes se deve ao crescimento no número de internações durante a pandemia. "Houve aumento no volume de pacientes internados em estado grave e por longos períodos, que apresentam maior risco de infecção hospitalar.

Também houve aumento no uso de antibióticos, o que eleva a pressão seletiva sobre as bactérias. É um cenário que favorece a disseminação da resistência, agravando ainda mais um problema de alto impacto na saúde pública", explicou ao site do laboratório.

A pesquisadora acrescenta que o uso dos medicamentos precisa ser mais equilibrado. "A alta na prescrição pode ser justificada pelo maior número de pacientes graves internados, que acabam desenvolvendo infecções secundárias e necessitando desses medicamentos. Porém, o uso excessivo precisa ser controlado para evitar que se impulsione a resistência bacteriana", alertou ela.

Os dados são preocupantes porque o IOC/Fiocruz recebe amostras dos Lacens (Laboratórios Centrais de Saúde Pública) de diversos estados e do laboratório de retaguarda da Sub-rede RM, unidade que analisa as bactérias resistentes a antibióticos, detectadas em casos de infecção hospitalar.


“Neste ano, já recebemos amostras de estados do Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste. O Laboratório Central de Saúde Pública do Paraná (Lacen-PR), que atua como referência na região Sul e parte do Centro-Oeste, também notificou alta. Não temos como precisar a dimensão do problema em nível nacional, mas é importante agir, e isso tem sido reforçado pela Anvisa”, pontuou a pesquisadora.

Em agosto, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou uma nota técnica que demonstrou preocupação com as superbactérias e pediu que pacientes com Covid-19 não fossem tratados com antibióticos, uma vez que não se comprovou cientificamente a eficácia dessas drogas contra o Sars-CoV-2.

No kit anti-Covid, conjunto de medicamentos previstos pelo governo para tratamento precoce contra a infecção, há a indicação do uso de antibiótico. O médico sanitarista Claudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa, advertiu em depoimento na CPI da Covid que a utilização poderia causar resistência.

"Na medida em que esses antimicrobianos são distribuídos na forma de kits, nós teremos cada vez menos opções para tratar infecções microbianas importantes. A azitromicina [antibiótico que faz parte do kit] tem um lugar específico para utilização na terapêutica médica.

Um antibiótico de uso fácil e prático, que pode ser dado em dose diária e vem sendo queimado pelo uso irresponsável para uma indicação que não lhe cabe", disse o especialista já no mês de junho, em depoimento.


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