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Falta de insumos para vacinas no Brasil deve atrasar a vacinação



A falta do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) necessário para a produção da Coronavac e da vacina de AstraZeneca/Oxford deve atrasar a vacinação contra a Covid-19 no país nos próximos dias.

Segundo o Ministério da Saúde, do total de doses dos imunizantes contra a Covid-19 distribuídos no país desde janeiro, 70% foram da Coronavac, 29,3% da AstraZeneca/Oxford, e 0,7% da Pfizer (dados de 14 de maio).

Nesta sexta-feira (14), O Instituto Butantan anunciou a paralisação da produção da Coronavac por falta de insumos, que aguardam liberação na China. No mesmo dia, o Butantan entregou 1,1 milhão de doses, que fazem parte do segundo contrato com o Ministério da Saúde, de mais 54 milhões de doses. Até o momento, não há novas previsões de nova entrega.

Segundo o Butantan, dez mil litros do IFA já estão prontos e separados na China para envio ao Brasil, mas o país asiático ainda não liberou o embarque desses insumos.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que produz a vacina da AstraZeneca também informou que vai paralisar a produção na próxima semana pela falta de IFA, até a chegada de uma nova remessa prevista para 22 de maio.

Entenda a seguir os principais motivos para os atrasos:
O que é IFA

É a matéria-prima básica para a produção de qualquer vacina. “São como os ingredientes de um bolo. Cada bolo tem os seus próprios, assim como diferentes vacinas têm diferentes insumos farmacêuticos ativos”, explica Leandro Torres, enfermeiro especialista em imunização pelo Ministério da Saúde e pesquisador, membro da União Pró-Vacina, do Instituto de Estados Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

A Coronavac e a Covishield (AstraZeneca/Oxford) são produzidas no Brasil a partir do IFA vindo da China, ou seja, a partir do insumo fornecido pela China, elas são elaboradas, purificadas e envasadas nos laboratórios do Instituto Butantan, em São Paulo, e da Fiocruz, no Rio de Janeiro.
O que são acordos de transferência de tecnologia

Para poder produzir as vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneca, os Institutos Butantan e Fiocruz fizeram acordos de transferência de tecnologia, respectivamente, com os laboratórios Sinovac e AstraZeneca.

Os acordos de transferência de tecnologia têm como base transferir toda a cadeia de produção do produto, seja um medicamento, seja uma vacina. E isso leva tempo, explica Elize Fonseca, professora de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas.

O acordo de transferência de tecnologia feito entre o Ministério da Saúde e a farmacêutica AstraZeneca prevê exclusividade na produção da vacina contra a Covid-19 no Brasil, o que impede outra empresa de fabricar o imunizante no país.

O Instituto Butantan, por ser um laboratório estadual, conseguiu fechar um contrato direto com a Sinovac para a produção da vacina, mas foi impedido de fabricar o IFA da Sinovac devido à exclusividade do acordo nacional, explica Fonseca.

A Fiocruz afirmou que começaria a produzir seu próprio IFA ainda em maio e que entregaria vacinas produzidas 100% no Brasil a partir de outubro. O longo processo ocorre pela necessidade de um rígido controle de qualidade do insumo, que “passa por muitas etapas de produção de lotes e de controle de qualidade”, afirmou a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, à CNN.
Entraves na entrega

Nesta semana, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) atribuiu o atraso na chegada dos insumos a "entraves diplomáticos" e disse ter feito um apelo aos chineses para a liberação de novos insumos. A declaração foi rebatida pelo Ministro da Saúde, que atribuiu o atraso na entrega do insumo ao Instituto Butantan à "questão contratual".

O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, disse que a demora na entrega do IFA importado da China pode estar ocorrendo por conta do empenho do país em vacinar seus cidadãos.

O laboratório de BioManguinhos (Fiocruz) recentemente atingiu a capacidade de produzir 1 milhão de doses por dia da vacina. Para evitar novas paralisações, a Fiocruz espera fechar até o final de maio um contrato com a AstraZeneca para recebimento de mais remessas do IFA oriundo da China. Apesar dos atrasos, a AstraZeneca tem acordo para fornecer o IFA à Fiocruz até o mês de junho, o que garante a produção de doses até julho.

Como há risco de nova interrupção na produção de doses entre agosto e setembro, a Fiocruz quer que a empresa forneça mais insumos, numa espécie de prolongamento do atual contrato.
Motivo dos atrasos

Segundo os especialistas consultados pela CNN, a demanda por IFA de vários países que usam o insumo chinês em suas vacinas, e a falta de articulação do Ministério da Saúde para outras formas de produção são os principais causadores da atual situação de escassez do insumo.

A China domina o mercado de insumos farmacêuticos para vacinas e medicamentos no mundo muito antes da pandemia, o que a faz ser um dos maiores distribuidores da matéria-prima no planeta.

Isso acontece porque há anos o país apostou na produção em massa de equipamentos médicos e insumos farmacêuticos com preços muito mais baixos do que os praticados nos países ocidentais, o que já faz com outros produtos ‘made in China’, afirma Elize Fonseca, da FGV.

“No momento de pandemia, com a corrida por vacinas, a demanda pelo IFA aumentou exponencialmente, o que faz o Brasil e outros países ficarem dependentes da matéria prima para fabricação de vacinas”, ressalta a professora.

Falta de investimento em infraestrutura que permita a produção de IFA nacional é outro entrave na melhora desta situação, segundo Torres. O pesquisador da USP diz que o governo federal deveria investir na produção de plantas industriais para a fabricar insumos farmacêuticos e utilizar mais a capacidade produtiva dos laboratórios estatais já existentes.

Elize Fonseca acrescenta ainda que o Brasil poderia aproveitar melhor os parques industriais da iniciativa privada já existentes para fabricar vacinas, parcerias que já ocorrem na produção de medicamentos nas Parcerias de Desenvolvimento produtivo (PDPs). Por meio das PDPs, o Ministério da Saúde firma acordos com laboratórios privados para que eles se comprometam a transferir aos laboratórios públicos a tecnologia para a produção de determinado medicamento dentro do prazo de cinco anos.

A professora dá como exemplo a PDP feita entre a própria Fiocruz e o laboratório Blanver, que permitiu ao Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) produzir em 2018 o sofosbuvir, medicamento para hepatite C, o que fez o remédio que custava até R$ 84 mil a unidade chegar ao preço de R$ 5 mil ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Atraso de IFA x atraso na vacinação

A professora da FGV alerta que a falta de IFA afeta o fornecimento de Vacinas como um todo, porque cria obstáculos em toda a cadeia. “O primeiro é ter o acesso ao insumo para produzir a vacina; depois tem o obstáculo legal de assinar o acordo de transferência tecnológica; na sequência temos que regularizar a aprovação e, por fim, garantir o acesso e a distribuição”, afirma.

Para Torres, a falta de IFA escancara um possível erro na distribuição das vacinas ofertadas no país. Segundo ele, o correto seria garantir a segunda dose para quem tomasse a primeira. “A cada lote de 1 milhão de vacinas, 500 mil pessoas deveriam ser vacinadas com a primeira e segunda doses, assim não seríamos tão afetados pelos atrasos”, opina.


Fonte: Camila Neumam, da CNN, em São Paulo
Imagem: Ilustrativa

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