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Tráfico de pessoas pode aumentar com pandemia, dizem especialistas



Porto Velho, ROPesquisadores alertam para o crescimento das investidas de aliciadores para exploração sexual durante o surto. Leia relatos de vítimas do crime

Especialistas em segurança pública acreditam que um dos reflexos provocados pela pandemina do novo coronavírus no Brasil, além das graves consequências na área sanitária do país, deverá ser o crescimento da atividade de grupos que atuam no tráfico humano, em especial aqueles voltados para exploração sexual de mulheres, uma das principais vertentes deste tipo de crime.

Para o coordenador do NETP (Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Trabalho Escravo) da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, Ricardo Alves, uma das explicações para a provável ascensão dos casos pode ser o aumento da vulnerabilidade das pessoas nos aspectos econômico e social no país.

"O aliciamento tem sempre uma face perversa. Lida com aquilo que é mais sagrado para as pessoas: a qualidade de vida e a família. Geralmente, [as vítimas são] pessoas em alto grau de vulnerabilidade, carentes ou problemas nos seus locais de origem. Essas pessoas são seduzidas pela possibilidade de uma vida melhor para si e seus familiares", avaliou Ricardo Alves.

A psicóloga Juliana Martins, coordenadora institucional do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), considera ainda mais perigosas as situações nas quais o aliciamento é feito pela internet, além de casos em que as mulheres já estejam subjugadas. "O isolamento social é fundamental para a gente diminuir o contágio por coronavírus e o colapso do sistema de saúde, mas vai agravar inúmeras situações no que se refere à violência de gênero e contra a mulher", enfatizou.

O mundo virtual concentra grande parte do campo de ação dos aliciadores. Muitas vítimas são adolescentes ou mulheres jovens, moradoras de cidades pequenas - com poucas opções de crescimento profissional - que caem na teia dos criminosos por vislumbrar a oportunidade de encontrar um bom emprego na metrópole.

As vítimas em potencial não costumam prestar atenção aos detalhes durante a abordagem dos traficantes, que as envolvem em um enredo elaborado cuidadosamente. O plano criminoso é posto em prática pacientemente, nunca em apenas uma conversa, seja pessoalmente - muitos aliciadores são pessoas próximas à família da vítima - ou por meio das redes sociais.

Foi o caso de Meg, nome fictício de uma carioca de 19 anos, que mora em uma comunidade do Rio de Janeiro com o marido, a mãe e outros cinco irmãos. Ela passou cerca de dois meses em poder de um sequestrador. O contato entre ambos foi iniciado com uma tentadora oferta de trabalho, em São Paulo, com passagens e alojamentos custeados pelo empregador. No entanto, ao desembarcar na capital paulista, a jovem foi forçada a se prostituir.

"Ele pegava o telefone das meninas, mandava mensagem falando que era uma proposta de emprego para trabalhar como arrumadeira em um hotel. Dizia que pagaria R$ 10 mil por dois meses [de serviços prestados]. Me buscou na rodoviária. Quando chegou em casa, falou tudo [sobre o trabalho como prostituta]. Ele falava que tinha uma arma, me ameaçava e batia nas outras meninas. Abusou de mim uma vez. Das outras, abusava todos os dias", contou Meg.

Todas as garotas eram obrigadas a fazer programas em um hotel no bairro da Liberdade, na região central paulistana. Porém, uma das vítimas, de apenas 16 anos, conseguiu escapar do cativeiro e avisar a polícia. O cafetão foi detido e as mulheres, libertadas. Se condenado, a pena pode variar de 16 a 30 anos de prisão, conforme expectativa do DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa), responsável pela prisão do sequestrador.

"Minha mãe não sabe até agora. Falei que estava na casa da minha madrinha. Nunca mais vou aceitar emprego pela internet", disse Meg, que voltou para o Rio de Janeiro, onde já havia se apresentado em boates, após completar 18 anos, trabalho que disse ter abandonado. "Coisa de momento. Não quero mais isso. Quero deixar o passado para trás e começar uma vida, fazer alguns cursos. O meu sonho era ser bombeira. Penso em prestar concurso", projetou.

O poder dos aliciadores

Para o coordenador do NETP Ricardo Alves, o exemplo de Meg revela outro aspecto psicológico bastante importante da relação entre aliciador e aliciada. Muitas vezes, a vítima até percebe que há uma probabilidade de se envolver em uma empreitada suspeita ou perigosa, mas aceita o risco pela chance de obter um crescimento financeiro e pessoal. "É mais ou menos como no jogo: aposta-se tudo porque você pode ganhar tudo. Mas você não imagina que pode perder tudo É um fator determinante na psicologia do aliciamento", ponderou o especialista.
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Crime rentável

Segundo Ricardo Alves, membro da Secretaria estadual de Justiça e Cidadania, o tráfico de pessoas é a terceira atividade criminosa mais rentável na atualidade, atrás apenas do comércio ilegal de drogas e de armas. "Os dados são de quatro ou cinco anos. Em função dos grandes deslocamentos dos últimos anos, acredito que [atualmente] o tráfico de pessoas seja mais rentável até que o tráfico de armas", complementou.

Já conforme dados da Polícia Federal, entre os principais tipos de crime destacados pelas autoridades federais estão a exploração sexual, de trabalho e o contrabando de imigrantes. O órgão informou que há cerca de 150 investigações em andamento relativas a crimes dessa natureza.

Subnotificação de casos

Um aspecto do tráfico de pessoas que tem sido bastante debatido entre as autoridades da segurança pública, justiça, direitos humanos e demais entidades que combatem esse tipo de atividade é a subnotificação dos casos, por se tratar de um crime de difícil identificação.

"O tráfico de pessoas é absolutamente subnotificado. Uma vítima jamais se reconhece como tal. É o caso da menina que volta para o interior e não diz que se tornou prostituta. Ela vai dizer que fez sucesso", exemplifica Ricardo Alves.

Por isso, a Polícia Federal lançou uma campanha nacional para, entre outros objetivos, qualificar as denúncias recebidas, combater a subnotificação de tráfico de pessoas e orientar a população sobre como proceder diante de uma suspeita semelhante. A denúncia é gratuita e anônima, feita pelo Disque 100 ou pelo Ligue 180.

Tráfico de bebês

Não menos nocivo às vítimas e seus parentes, o tráfico de bebês representa outra parte importante da exploração criminosa de seres humanos. Em várias situações, aliciadores se aproveitam de famílias em situação de extrema pobreza para vender crianças recém-nascidas a casais de outras regiões do Brasil e do exterior.

Uma dessas vítimas é a universitária franco-brasileira Sophie Scappaticci Fortin, de 27 anos. Nascida no Ceará, a jovem foi adotada por um casal de franceses quanto tinha sete meses. "A minha mãe não tinha dinheiro para me criar e eu tinha um irmão gêmeo, que estava doente. Ela já tinha um filho. [Ela me deu para adoção] porque pensou que assim iria sobreviver e iria ajudá-la também", contou a jovem.

Sophie revelou que os pais já haviam adotado um menino no Brasil e queriam uma filha. Apesar de saber da condição de adotada desde a infância, a jovem disse que ficou chocada ao saber a verdade sobre o passado ao fazer uma pesquisa da sua árvore genealógica. "O choque foi descobrir que tudo isso foi tráfico, que meus pais foram enganados. Não fui a única pessoa vítima de tráfico. Isso foi o que mais me tocou", afirmou a estudante.

No entanto, Sophie, que conversou com o R7 durante um período de férias na casa de amigos, em São Paulo, garantiu que não guarda mágoa da mãe biológica. Ao contrário de muitas outras vítimas de tráfico, ela acredita ser uma pessoa afortunadada. "Tive uma vida boa na França. Não tenho do que reclamar. Só tenho a agradecer", comentou. Hoje, Sophie ainda vive com o pai - a mãe faleceu -, em Evreux, na região da Normandia, no norte da França, onde cursa comunicação.

Exploração laboral

Mais uma faceta não menos cruel do tráfico de seres humanos bastante comum diz respeito à exploração laboral. Em países da América do Sul, como Peru e Bolívia, há milhares de cartazes com ofertas de trabalho na indústria têxtil ou em pequenas empresas de confecção no Brasil. Somente no Estado de São Paulo, há mais de dez mil pequenos pontos deste tipo de atividade.

Por isso, uma lei federal, datada do dia 25 de março deste ano, determina que estrangeiros tenham a regularização migratória como residente no país para que possam usufruir dos benefícios que as vítimas possuem.

"É muito comum em resgates de trabalhadores em pequenas casas de confecção você ouvir que a pessoa prefere permanecer naquela condição social gravíssima por ter comida e um lugar para morar. Por isso, essa lei ajuda", finalizou Ricardo Alves, coordenador do NETP da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo.

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